Vem chegando o inverno e, diferentemente do que acontece nos demais países produtores de vinho no velho e no novo mundos, quando os vinhedos estão adormecidos, muitos parreirais Brasil adentro, estão carregados com cachos de uvas vistosos e suculentos, prestes a gerar uma segunda safra de uvas destinadas à produção de vinhos. Milagre? Não, nada disso. Trata-se de pesquisa e tecnologia aplicadas à viticultura brasileira, que permitiram a criação do método de produção conhecido como “dupla poda” e, consequentemente, a elaboração dos chamados vinhos de inverno.
Desenvolvido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minasa Gerais (Empamig), a dupla poda (ou poda invertida) consiste na realização de duas podas durante o ciclo da videira. A primeira acontece em agosto, no período final do inverno, para que seja estimulado o crescimento vegetativo da planta, sem que gere os frutos. A segunda ocorre em janeiro, em pleno no verão, para interromper esse ciclo e induzir a planta a brotar novamente, permitindo que os cachos cresçam e amadureçam no inverno seguinte, permitindo a colheita e o início da produção dos vinhos.
O método desenvolvido pela Epamig veio ao encontro das condições climáticas mais propícias para a produção de vinho no inverno brasileiro, em geral seco e com grande amplitude térmica, o que permite que as uvas atinjam um ponto de maturação ideal, concentração de aromas e sabores, por exemplo. É uma situação oposta à do verão, que é bastante úmido, sobretudo em regiões produtoras de vinho no país. É o oposto do que se vê, por exemplo, nos países produtores do Hemisfério Norte, nos nossos vizinhos Argentina e Chile, além da Oceania. Com os enólogos e viticultores trabalhando a todo vapor no campo e nas adegas, o inverno traz também às vinícolas a oportunidade de receber turistas e enófilos, que podem provar os vinhos no próprio local em que são elaborados.
Foi pensando tanto no desenvolvimento dos vinhos de inverno quanto no boom do enoturismo que a Wines of São Paulo surgiu em 2023. Trata-se de uma associação de produtores que reúne onze vinícolas paulistas. Em 2025 elegeu sua primeira diretoria, tendo o empresário Luiz Biagi como presidente. A WSP é composta pelas vinícolas Arcano (Franca), Biagi (Cravinhos), Casa Verrone (Itobi), Família Davo (Ribeirão Branco), Ferreira (Campos do Jordão), Guaspari (Espírito Santo do Pinhal), Marchese di Ivrea (Ituverava), Philosophia (São Roque), Refúgio (Bofete), Terras Altas (Ribeirão Preto) e Villa Santa Maria (São Bento do Sapucaí).
Seus associados compartilham a missão de posicionar o vinho paulista como referência de inovação, qualidade e autenticidade nos mercados interno e externo, além de fortalecer uma cadeia de enoturismo que está sendo desenvolvida, possibilitando às pessoas viverem experiências incríveis ligadas ao mundo dos vinhos, em vinícolas muito bem estruturadas, localizadas em suas próprias regiões.
E os resultados vêm aparecendo. “No último ano, algumas vinícolas associadas ganharam medalhas em concursos internacionais importantes, entre eles o Mundial de Bruxelas e o da revista Decanter”, contou à GULA o presidente da WSP, Luiz Biagi. “Em São Paulo temos diferentes tipos de terroir, com bastante potencial, como o de Campos do Jordão e o de Ribeirão Branco”.
De acordo com Biagi, a produção das vinícolas associadas chegam a 10 milhões de garrafas, entre os vinhos finos e os vinhos de mesa. Algumas vinícolas, a exemplo da Ferreira, da Guaspari e da Philosophia, essa ligada à tradicional marca Góes, já exportam rótulos para outros países. “E nossa expectativa é chegar a 25 vinícolas associadas nos próximos três anos”, conclui Luiz Biagi.